Afonso Cruz

O QUE É O CORAÇÃO?                                  

O QUE CRESCE NO DESERTO                      

LIVRO DO ANO I                                                 

LIVRO DO ANO II                                                 

CONTRADIÇÃO HUMANA                              

HISTÓRIA DE AMOR DOS PAIS DE...         

Não somos adeptos, como temos defendido, de grandes perguntas de interpretação sobre os livros que queremos ensinar a (de)gostar. Perguntas, só as que o livro nos leva a fazer, enquanto leitores, para usufruí-lo melhor. É o que procuramos aqui, uma vez mais, com este livro de Afonso Cruz.

Para apresentar este livro, seleccionamos o capítulo 11 - "Os meus pensamentos não foram".

  • Começamos com uma primeira leitura, nem muito neutra nem excessivamente expressiva (exemplificada no vídeo);

  • Desafiamos os jovens a emprestar as suas vozes, a outras leituras do capítulo todo ou a partes por eles escolhidas.

  • Depois de algumas leituras, detemo-nos nalgumas palavras ou expressões, não para fazer perguntas sobre o seu significado mas para conversar sobre elas, pelo que sugerimos que seja o professor a iniciar a conversa, provocando a fala dos jovens. Exemplo: "uma mãe a ferver" [o melhor é não nos aproximarmos de uma mãe assim, porque às tantas a gente ainda se queima]; "Aquela estranha luz lambia todo o sótão, tal qual eu faço com um gelado" [até parece que estou a ver a luz a entrar, a lamber o chão ...]; "palavras profundas, daquelas que parecem garfos" [Tem piada, sinto estas palavras mas não é nos ouvidos ...]; "Não citou Dostoievski" [uma oportunidade para falar sobre o uso que fazemos das citações, para reforçar uma ideia ou defender um ponto de vista, reflectindo sobre a oportunidade ou circunstâncias que justificam o seu uso]

A leitura do livro todo ficará à responsabilidade daqueles que se sentirem mais motivados a fazê-lo e se comprometam a partilhar a experiência da sua leitura connosco, num tempo que agendamos para o efeito.

Um pretexto para viajar com diferentes «figuras de linguagem - estilo»

Um curtíssimo excerto de «Vamos Comprar um Poeta»

«Sem metáforas não é muito interessante falar», diz o poeta, personagem do livro de Afonso Cruz, «Vamos comprar um poeta», um livro que é, ele mesmo, uma metáfora. E nós acrescentamos: e escrever também não.

 

A escrita «linear», que leva a leituras literais do acontecimento e pouco mais, não deixando de ser importante valorizar, é provavelmente das mais fáceis de explorar, porque o que há para saber está todo lá: está quase tudo nas suas linhas e pouco ou nada entre elas para revelar. Levar o leitor para lá do texto não é, de todo, uma das suas preocupações: não tem metáforas nem outros desafios idênticos para explorar.

  

«Estou mesmo a precisar de uma metáfora ou, ao menos, de uma comparação», desabafa outra das personagens desta história. Ter consciência desta necessidade é ter consciência de que uma palavra ou expressão pode ser mais, ou algo diverso, do que o seu significado literal aponta, está muito além dos significados que encontramos nos dicionários.

 

Considerando que são praticamente impossíveis grandes conversas sem que haja lugar, ao menos, à entrada de uma metáfora, entendemos ser útil, desde cedo, estimular práticas que desenvolvam o seu uso: deixarmo-nos deslumbrar, quando nos encontramos com elas nos textos que lemos, é fundamental para a tomada de consciência da sua importância. Só que esta tomada de consciência nem sempre nos chega de forma espontânea. E quem melhor do que o(a) professor(a) para cultivá-la, ao contagiar os seus alunos com o seu espanto por esta ou por aquela expressão, e que só uma leitura «tocada» em voz alta, para usar o termo de Rubem Alves, é capaz de proporcionar.

 

«Uma janela é muitas coisas e...», diz Afonso Cruz, pela voz da personagem do seu livro. E muitas coisas podem ser janelas também!, dizemos nós. Entramos então no propósito que nos trouxe aqui.

 

Antes de mais, defendemos a ideia, muito defendida noutras escritas deste «sítio», de que leitura [leitura da escrita, já que a leitura está em tudo que nossos sentidos tocam] e escrita são faces da mesmo moeda. Podemos vê-las separadamente, mas apenas isso: não existem fora do objecto [escrita] de que são parte. Daqui que a fala, que a leitura do texto faz ouvir, nos chegar, entre outras particularidades, impregnada das marcas da escrita. Com isto queremos dizer que a melhor forma de nos apropriarmos do sentido de uma expressão, de um texto, de um livro até, é através do ponto de vista de quem escreve [ler como um escritor, refere Francine Prose]. Espantamo-nos com a leitura de uma expressão e o espanto continua sempre que a vemos escrita. Olhadas parece que adquirem outra dimensão: há algo no seu desenho a reforçar o espanto! E por isso, talvez, muitos de nós, voltamos tantas vezes à leitura de poemas que sabemos de cor!

 

Janela é metáfora para tanta coisa. E há tanta coisa que pode ser metáfora de outras tantas. Vamos, então, trazer os nomes dessas coisas e ver até onde conseguimos chegar com eles, num trabalho onde a palavra que nos espanta é rainha. E o desafio será que cada um eleja a palavra, qualquer que ela seja, com a qual quer viajar numa metáfora [ou noutra qualquer figura de estilo], inspirados no texto de Afonso Cruz.

Uma montagem em vídeo de um pequeníssimo texto de Afonso Cruz - "Ito, Masamitsu" - com ilustração de Susa Monteiro, extraído do livro "Reencarnações de Pitágoras", vol. 4 da Enciclopédia da estória universal. Lisboa, Alfaguara, 2015

Peter Mendelsund diz que a imaginação de alguém vê-se na sua capacidade de transcrever as suas visões, e sugere que, tal como a visão, a imaginação também pode ser treinada. Se uma pessoa não consegue transcrever as suas visões numa fala, numa escrita, na música, na pintura…, ou noutra qualquer forma de expressão, isso não quer dizer que essa pessoa não tem imaginação, mas apenas que não encontrou forma de dar forma às suas «visões», numa forma que se perceba. Aprender a domar as nossas «visões», a amarrá-las em formas e sequências de formas que façam sentido, eis então em que assenta o treino da imaginação. E observar as formas que outros utilizam para amarrar as suas visões, ajuda a encontrarmos formas de amarrarmos as nossas.

CONTRADIÇÃO HUMANA                                                                                                                                                                                                                             

SEM METÁFORAS NÃO É MUITO INTERESSANTE FALAR                                                                                                                                                                 

SOBRE O PODER DA IMAGINAÇÃO