Bom dia e boa tarde ou levar a escola para casa

Bom dia, boa tarde e boa noite são, provavelmente, as saudações que mais usamos para cumprimentar as pessoas, conhecidas e menos conhecidas, com quem nos cruzamos no dia-a-dia. E não são raras as vezes em que trocamos um "boa tarde" por um "bom dia". Comigo é troca que acontece com frequência! Quantas vezes, ao entrar numa loja qualquer, dou comigo a cumprimentar o funcionário, que me atende, com um bom dia e a receber de volta um sorriso, acompanhado de um "boa tarde", seguido de: «mas não deixa de ser um bom dia também». São cumprimentos que nos situam no tempo. Não no tempo marcado pelo relógio mas pelos elementos que marcam o nosso dia e que hoje não marcam mais ou, marcando, não marcam com a mesma intensidade. É o tempo em que o dia é dia e a noite é noite; e o amanhecer marca o início do dia e o anoitecer o seu fim – curioso, manhã e noite têm uma palavra a designar o seu início, mas a tarde terá uma a marcar o seu fim? Será porque apenas na tarde o fim convoca a contemplação poética? – Ah, mas estás a esquecer que a noite entra nas contas das 24 horas que o dia tem! Pois entra. Mas esse é outro dia. É o dia que o relógio nos dá: não distingue a noite do dia, a tarde da manhã; não dá conta do sol e da lua… apenas dá horas e faz-nos correr atrás delas.
Recordo isto agora porque, um dia destes, dei comigo a corrigir o “bom dia” de um amigo com um “boa tarde”, recorrendo à mesma expressão que o funcionário da loja usou comigo. E recordei com ele um episódio, que vivi com uma turma dos meus primeiros anos de professor primário (era com esta designação que o professor, hoje do 1º ciclo, se reconhecia). Eram os inícios da década de setenta, e eu tinha “emigrado” para Chaves (nesse tempo passar para o lado de lá do Marão era mesmo entrar noutro país), para ocupar um lugar numa pequena escola dos arredores: uma sala de aula, duas turmas em regime de desdobramento; 3ª e 4ª classes de manhã; 1º e 2ª classes de tarde.
Eu trabalhava no turno da manhã, entre as 8,30 e as 13 horas. E, normalmente, era a entrada na sala, da professora da tarde, a 10 minutos do fim das aulas, que me dizia estar na hora de arrumar.
Ela entrava-me sempre na sala com um: «boa tarde meninos». E um dia aconteceu uma resposta que, nas circunstâncias da altura, ninguém estaria à espera: «só se for pra você que já comeu» – respondeu um miúdo ao cumprimento! E eu, ainda atordoado com a expressão, devolvi: «Então Domingos – nunca mais esqueci o seu nome – estás farto de me ouvir dizer que você, na minha terra, é burro». Ao que ele, desculpando-se, continuou mais ou menos nestes termos: «desculpe senhora professora, mas a gente ainda não comeu e a tarde é só depois da gente comer». Estava dada a deixa para a pergunta, também inesperada, que se seguiu: «a tarde também é dia; porque é que não pode ser bom dia?» – perguntou outro miúdo, dirigindo-se a mim, desta vez.
Nesse tempo, um professor sabia tudo. Tinha sempre uma resposta. Dizer “não sei”, era o mesmo que colocar a sua autoridade em causa. Então, éramos aconselhados, nas escolas de formação (de magistério primário, na altura) ou a dizer, à bruta, que o assunto não era para ali chamado, ou era para tratar noutra altura, ou então sugerir: «boa pergunta, para tentares encontrar a resposta. Se não conseguires, amanhã a gente continua a conversa». Foi esta a saída que escolhi para fugir ou adiar o embaraço. Porque o que senti foi mesmo um embaraço, que a troca de olhares com a colega da tarde não conseguiu desfazer. Mas como o nosso dia de aulas (meu e dos meus alunos) estava mesmo passado, a coisa ficou por ali, adiada para o dia seguinte.
Hoje, não sei se alguém, apanhado de surpresa com uma pergunta igual, se desenrascaria melhor que eu. Foram horas terríveis as que se seguiram. Dava voltas ao miolo e nada de resposta. E ninguém me soube responder! Raios partam a curiosidade das crianças, praguejei então. Que me lembre, foi a primeira vez que trouxe a escola de volta comigo. É que, nesse tempo, depois de acabada a escola, o normal (hoje não sei bem se a norma se mantém) era deixar a escola, sossegada, onde estava.
Há uma capacidade que todo o homem tem, mas que só usa quando sabe que tem, que se chama de capacidade meta-cognitiva. Acho que a descobri, em mim, na tarde daquele dia. Não a identifiquei, apenas fiz uso dela, por força do embaraço que me obrigou a pensar. É a capacidade de refletir sobre o que sabemos, de questionar o nosso próprio conhecimento de forma a avançarmos nele com as perguntas que nos fazemos. Trata-se de encontrar a pergunta certa; de saber perguntar. Vergílio Ferreira diz que “perguntar é abrir a distância que está sempre em nós. Quando essa distância é máxima a resposta está no infinito”! O segredo, então, está em encontrar a pergunta que encurte a distância! E a pergunta que encurtou a distância em mim foi: «porque é que digo bom dia em vez de dizer boa manhã?» E a resposta surgiu milagrosamente: «porque de manhã tenho todo o dia à minha frente; não desejo que seja apenas uma boa manhã, desejo que o dia todo seja bom. De tarde, a manhã já passou. E não sabemos como foi a manhã de quem encontramos à tarde. Se teve uma manhã terrível, mesmo que a tarde se componha, o dia já não será assim tão bom».
Hoje o professor já não tem que saber tudo. E a sua autoridade já não é posta em causa quando diz que não sabe, se o saber que não sabe não fizer parte do programa que tem para ensinar. Pode procurar, na escola, com os seus alunos, a resposta que não sabe de pronto. A escola que traz de volta para casa, não é mais a das perguntas que os seus alunos lhe fazem. No entanto, acho que não ficou melhor o tempo de quem faz da escola profissão. Melhor seria continuar a trazer de volta consigo perguntas de alunos.

Daniel Lousada