A leitura e o cão

A irracionalidade chegou para ajudar a descobrir a máquina de calcular como a causa das nossas desgraças matemáticas, e o corretor ortográfico como o culpado dos nossos problemas de ortografia. Parafraseando Chomsky, é caso para dizer que podemos pegar num martelo e partir a cabeça de uns quantos que a culpa será sempre do martelo. Ainda bem que os “novos cientistas” da educação deste país não foram professores na escola do meu tempo; às tantas, algum lembrava-se de me partir os dedos para não me deixar usá-los nas contas que fazia.

A questão não está em saber se as novas tecnologias devem ou não entrar na escola mas em pensar na forma da sua entrada. Dizer, por exemplo, que uma criança não aprende a tabuada porque a máquina de calcular entrou na escola, é uma idiotice. Uma criança sem “problemas”, visíveis ou invisíveis, não decora a tabuada, como não decora muitas outras coisas, por uma única razão: “não está para aí virada”, com ou sem máquina de calcular! Cabe à escola, ao professor, encontrar forma de virá-la.

Curioso é que, quem critica o uso da máquina de calcular na escola, não são os professores que têm a responsabilidade de “obrigar” a decorar a tabuada. Eles sabem que a máquina não está na sala de aula para substituir tabuadas. E como sabem, não deixam que isso aconteça.

Como diz Chomsky, afirmando a neutralidade dos instrumentos, a culpa não pode ser do martelo. Os instrumentos servem o propósito de quem os usa. No entanto, despreza-se com uma leviandade que já irrita, as razões que justificam a introdução desta ou daquela tecnologia na escola, no pressuposto ignorante de que o modelo de organização do trabalho de aprendizagem será o mesmo!

 

Daniel Lousada