TPC Sim ou Não: um debate inútil

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NOTAS

1. Funções que ocupou entre 1995 e 2001

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3. ÁgoraGaia [sítio do facebook], Publicações dos visitantes, comentário à publicação de 14-04-2016 / 23.04 horas

4. Expressão que utilizou ao referir-se aos exames.

5. Philippe Meirieu, acima citado

6. Isto porque a opinião das crianças, normalmente, conta pouco ou mesmo nada, quando toca de de­cidir sobre es­tas coisas

Se tenho de responder, respondo «N'im»

Daniel Lousada

O debate sobre os benefícios e os prejuízos dos TPC [trabalhos para casa ou deveres, como se dizia em tempos idos] não é novo. Ainda tenho presente a polémica instalada entre nós, por Ana Benavente, então Secretária de Estado da Educação e Inovação Educativa,[1] ao referir-se às desigualdades que os TPC provocam. Antes, tinha-me chegado às mãos um livro fabuloso de Philippe Mei­rieu, que reflectia sobre este tema – «Les devoirs à la maison» – e com ele a expressão: «Nunca se insistirá bastante sobre o facto de que mandar sistematicamente “deveres” para fazer em casa é na realidade remeter para a desigualdade: desigualdade de condições de vida, mas também, e sobretudo, 

de envolvimento familiar e cultural».[2]

Ontem – está a acontecer também hoje, como seria de prever – esta espécie de «prós e contras» que armadilhou o debate, não levou a lado nenhum: quem era contra os TPC manteve-se contra e quem era a favor não encontrou argumentos contra que o fizessem mudar de posição. E isto porque falar da utilidade [ou inutilidade] dos TPC «sem discutir as formas de organização do trabalho de aprendizagem promovidas na escola, é um debate inquinado à partida [inútil, portanto], tal como têm sido os «grandes debates» [grandes apenas pelo ruído que provocam] sobre a bondade [ou falta dela] de testes e exames. O problema (…) não é o trabalho que a criança leva para casa, mas a natureza deste trabalho que, a maior parte das vezes, faz lembrar o funcionário que leva trabalho para casa porque a entidade patronal não admite atrasos nem paga horas extraordinárias».[3]
Parafraseando Ana Benavente, argumentar contra os TPC é muito complicado, «porque a seu favor temos o senso-comum [vindo da tradição] e a ignorância».[4] Estou mesmo em crer que os pais que se manifestam contra, fazem-no não porque discordem, em absoluto, do trabalho que os seus filhos levam para casa, mas porque se sentem incomodados com os seus excessos. E acredito que, se o voto democrático dos professores imperasse nesta matéria, a grande maioria votaria a favor da sua continuidade. Porquê? Porque em matéria de educação, a tradição tem muita força: mesmo quando se diz que «a tradição já não é o que era», é ela que continua a «desenhar» a visão que temos da escola. E o que diz a tradição é que «o trabalho da escola faz-se em casa… na escola escuta-se»[5]: os alunos ouvem as lições do professor e estudam a lição em casa, «estimulados» pelos TPC que o professor passa na aula. Seguindo a tradição, sem os «TPC», a escola não seria o que é! Então, perguntar «Trabalhos para Casa, Sim ou Não», olhando uma escola que não consegue ver-se sem eles, terá o não garantido, como resposta.[6] 

Repetindo o que ficou dito acima, o problema não está no trabalho que a criança leva para casa, mas na sua natureza. Quer dizer, ser contra os «TPC» não significa, necessariamente, rejeitar todo e qualquer trabalho em casa, mas a necessidade de estabelecer uma outra relação com ele. Até porque, para proibir, é preciso saber muito bem que trabalho se está a proibir. Daqui que, à pergunta Sim ou Não aos «TPC»?, respondo com outra pergunta: que outro modo podemos promover, no relacionamento da escola com os diversos espaços onde o saber se constrói?