A criança, a leitura e o cão. Que relação?

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Equívocos e Provocações

 

Volta e meia, meia volta, aparecem no "mercado" projetos que pretendem ser de "intervenção terapêutica", que utilizam animais como elemento de mediação na resolução de problemas de desenvolvimento desta ou daquela aprendizagem.  É o caso do projeto "Cãofiante" [retratado no vídeo e noticiado no jornal da tarde de domingo da rtp1- 30.Março.2014], que explora uma ideia deste tipo, utilizando o cão como mediador na relação da criança com o livro, acreditando, assim, desenvolver o gosto pela leitura junto das crianças.

Confesso-me, desde já, um céptico, relativamente a este tipo de intervenções na escola, que têm o condão de desviar a nossa atenção do essencial.
Sejamos claros: de que ajuda é que as crianças precisam no desenvolvimento da leitura? E qual é o papel dos cães neste processo?
Sinceramente, por mais voltas que dê ao assunto, não consigo ver o cão ou outro bicho qualquer como mediador entre o livro e o leitor. Quando muito, com muita boa vontade à mistura, consigo ver o cão como uma espécie de destinatário da leitura que a criança se propõe fazer ou que alguém lhe propõe que faça, ou que a acompanha nesta tarefa, envolto numa espécie de brincadeira.. E aqui entramos no centro da questão. Porquê o cão e não um colega ou o professor? Porque «ao ler para o cão eu não me sinto tão envergonhada », diz uma das crianças no que podemos assumir como uma espécie de resposta. E continua outra criança: «quando estamos ao pé deles sentimos mais confiança ». Acontece que a confiança de que uma criança necessita é a confiança que tem nela mesma e que desenvolve a partir da confiança que o outro lhe inspira e se projeta nela.
É provável que uma criança se sinta segura e confiante na companhia de um cão [se foi educada a gostar de cães]. É provável que a sua relação com um animal de estimação contribua para o desenvolvimento do seu equilíbrio emocional [é o que dizem dizer alguns estudos], pelo conforto que retira da sua companhia. Mas daqui a relacionar os efeitos desta relação com o desenvolvimento da leitura vai uma distância que não consigo imaginar. Não serão precisos grandes estudos para afirmar que uma criança saudável, emocionalmente equilibrada, terá mais condições de sucesso do que qualquer outra que viva num ambiente desiquilibrado ou padeça de uma qualquer doença: reprimido num ambiente hostil, dificilmente alguém quererá saber de livros; mas rodeado de gente que o aprecia e lhe quer bem, sentir-se-á estimulado a colocar tudo de si nos desafios que tem para enfrentar.
O gosto pela leitura não se desenvolve através da mediação de um cão. E embora pareça ser essa a mensagem que nos querem fazer passar, não é de mediação canina que esta reportagem trata. O que se observa neste vídeo é um conjunto de crianças que partilham a leitura e o livro num ambiente descontraído, onde o cão é a novidade que entra na brincadeira. Substituam o cão por um grande urso de peluche, ou deixem o urso em paz mantendo o ambiente, e o resultado não será muito diferente.


Daniel Lousada