O que se aprende e como se aprende
"Determinar horas no 1º ciclo, jamais!" [Rui Rangel]

"Independentemente dos efeitos nefastos do consumo, qualquer criança tem mais estímulo à aprendizagem em qualquer supermercado do que numa escola", reagia assim, Manuel Rangel, ao comentar, em 2015, a revisão do currículo do ensino básico, nomeadamente dos programas do 1º Ciclo.

 

Desde que, em 2010, o então secretário de estado da educação, Valter Lemos, "abriu as hostilidades" contra a visão integrada que caracteriza o currículo do 1º Ciclo, que tem sido sempre a descer: ao apostar na fragmentação do currículo, impondo horas para as disciplina de português e matemática, o 1º Ciclo começou a transformar-se numa "manta de retalhos". E o governo seguinte, com Nuno Crato, reduziu-o à condição de um "monte de trapos".

 

Estamos em 2018. E não sei se há oito anos seria possível imaginar o tanto que se andou para trás, e que agora parece custar tanto a recuperar. 

  

As medidas propostas pela actual equipa ministerial são contraditórias: por um lado, aposta-se na flexibilização curricular e, por outro, no reforço da disciplinarização do 1º Ciclo, determinando horas para as áreas de expressões, à semelhança que foi, em 2010, determinado para o português e para a matemática . Estranha, esta esquizofrenia!, que procura dotar o 2º ciclo e seguintes, dos instrumentos que lhes permite a aproximação a uma visão mais integrado do currículo, enquanto que, num ciclo onde, por força do regime de mono-docência que o caracteriza, essa visão é vista como natural, se aprofunda a fragmentação do seu currículo. 

  

Entretanto enferma-se dos mesmos vícios burocráticos, fazendo-se acompanhar cada medida do preenchimento de toneladas de papeis, numa ânsia de controlar tudo e todos, capaz de levar qualquer um à loucura. Até parece que alguém, algures na cadeia de comando, precisa de informação na hora, para escrever, quem sabe, uma tese de doutoramento, ou uma qualquer publicação que ninguém lê, mas que o retira do anonimato! 

Daniel Lousada