Entre tema livre e escrita livre

Daniel Lousada

Vemos a redação não como um tipo de escrita mas como uma das formas que a escola fixou para pedir aos seus alunos que escrevam um texto, num tempo e num espaço determinado, numa coabitação que procuramos sem conflitos com o «texto livre». Por isso não pedimos a uma criança que escreva uma redação (que se caracteriza, entre outros, pelos constrangimentos de horários a cumprir), sobre um tema à sua escolha (redação de tema livre); e não é porque achemos que as crianças não devam ter temas sobre os quais gostassem de escrever: é porque corremos o risco de estar a desperdiçar as escolhas dos alunos em momentos em que a vontade de escrita não seja a melhor. Entendemos que se o tema é livre, é preferível deixá-lo acontecer numa outra forma de convocar a escrita, mais de acordo com a liberdade de um tema: no espaço que o «texto livre» marca, onde a escrita ocorre liberta dos constrangimentos de espaços e de agendas fixadas para cumprir a tarefa. (...)
 

(...) Houve tempos em que colocávamos em oposição estas duas formas de convocar a escrita; falávamos de texto livre por oposição a outras formas de fazer uma criança escrever: de um lado a escrita livre e do outro todas as outras, numa espécie de confronto moral que procurava desacreditar as formas tradicionais de convocar o texto. Ora, o texto livre não é uma instituição absoluta que procura excluir da escola qualquer outra forma de solicitar a escrita. E então, com a redação, defendemos o texto que se quer libertar da vontade que o convocou, integrando-o no mesmo processo de produção que a instituição do texto livre defende: a redação não tem que ser apenas exercício de escrita que o professor corrige.

Defender o texto livre como única forma legítima de solicitar um texto seria defender o slogan de que a criança deve escrever unicamente o que quer, quando quer, se quiser. E isto seria um absurdo! Há coisas que só aprendemos a gostar porque alguém insistiu que experimentássemos, colocando-se a nosso lado para participar connosco da experiência. E então, perante uma experiência bem sucedida, o mais provável é que ela se repita, sem necessidade de um novo convite, no espaço de liberdade psicológica" instituido na sala de aula, que dá pelo nome de Texto Livre. (...)

Uma redação, apenas porque alguém nos pede que escreva, não tem de ser uma patetice qualquer, sem sentido, nem precisa vir despojada de prazer. (...) Assumimos a redação pelo que ela pode trazer de facto: sugestões de escrita, de temas que podemos desenvolver dando pistas, propondo desafios que, de outra forma, os nossos alunos não teriam condições de explorar (...)

E os temas livres? Bom, se são livres, saídos das escolhas das crianças, não vamos amarrá-los ao tempo e espaço que a redação marca: vamos dar-lhes a liberdade de aparecer quando parecerem, se aparecerem, onde quiserem aparecer, quer dizer, no espaço que  instituímos para a escrita: o Texto Ivre, um espaço que, no dizer de Pierre Clanché é de "liberdade psicológica não decretado mas materialmente instituido". Um espaço criado para que a escrita livre aconteça (e a liberdade para escrevê-la também) num mundo onde a escrita não pode deixar de ser obrigatória.

 

Vemos, então, na redação, um espaço em deslocação para o texto livre, que diminui à medida que a escrita livre se alarga.