O diálogo palavra-imagem no ensino da leitura e da escrita

Daniel Lousada [apenas, até ver]

«Será que visualizamos alguma coisa quando lemos?» - interroga-se Peter Mendelsund. Claro que sim. E a leitura será tanto mais eficaz quanto maior for a nossa competência para elaborar imagens a partir do texto. Daqui a importância de, sempre que possível, associarmos a palavra à imagem e a imagem à palavra, quando tratamos de ensinar a ler e a escrever: ora construindo imagens que estimulem os sentidos [qualquer sentido], na busca da tradução da palavra que temos para ler [ensinar a «ver» para compreender]; ora trabalhando sobre a palavra que identifica a imagem e com a qual fazemos a sua leitura e, porque não, a sua escrita [ensinar a ler imagens e a escrever sobre o que dizem]. 

Esta última relação será, talvez, a mais explorada na escola, com actividades que começam por ser descrições dos elementos que compõem a imagem e nas quais a dimensão pictórica [das descrições] está muito presente, para evoluir depois no sentido de uma visão mais interpretativa da imagem, mais conceptual e menos figurativa - uma das finalidades da escrita, afinal. Porque para o pictórico já temos a fotografia, o desenho, a pintura... Foi enquadrados neste tipo de proposta, que realizamos o trabalho de texto, a partir do poema «Sem Data» de Nuno Júdice, que tem como ponto de partida a descrição de um retrato [VER >>>]

Isto não quer dizer que, à medida que nos fazemos mais competentes, nos vamos desprendendo da dimensão visual da escrita [bem pelo contrário], apenas não precisamos que outros desenhem a imagem por nós. Esta é, aliás, uma dimensão que muitos escritores experimentaram explorar ao limite. É o caso, entre outros, de E. M. de Melo e Castro e Ana Hatherly, com as suas experiências de «poesia visual» - Realça-se a particularidade de, nestas formas, escrita e imagem se apresentarem como um mesmo objecto [Sobre poesia visual ou concreta LER >>>].

Ao trazer até aqui a «poesia visual», é sobre o «movimento» da palavra, que busca a imagem que lhe dá sentido [ver para compreender], que nos queremos debruçar.1 Esta opção baseia-se na convicção de que, por mais abstracto que seja o significado de um texto, expressão, ou simplesmente uma palavra, haverá sempre uma imagem que nos ajuda a «vê-lo» melhor. A este movimento [palavra®imagem], seguir-se-á, sempre, o movimento no sentido contrário [imagem®palavra], no decurso do debate sobre as leituras que as imagens produzidas suscitam: que nos leva a ver esta ou aquela imagem nesta palavra?

Umas vezes é a palavra [ou as palavras, se for uma frase] que desenha, numa imagem, uma ou mais das característica para que aponta o seu significado e a distingue: é o caso que podemos observar com os «poemas visuais» de Melo e Castro [Figura.1]; outras vezes é o desenho que sai da palavra para lhe reforçar o sentido: é o caso de «VIVENDO», de Ana Hatherly [Figura.2], onde a palavra parece fundir-se numa forma que nos faz senti-la de um modo que não sentiríamos, não fora aquela espécie de vida que parece sair dela. Por isso consideramos tão importante um ensino da escrita com uma forte ligação à imagem, por aquilo que ela pode acrescentar aos sentidos menos «visíveis» de uma palavra. 

A entrada deste tipo de propostas na escola não é nova [anagramas, ideogramas, caligramas, pictogramas, tipogramas, crucigramas, ...]. Mas, nem sempre temos considerado, consistentemente, nesta entrada, outras preocupações, para além da dimensão lúdica que estas abordagens trazem para o ensino. Entendemos que a introdução de actividades lúdicas, no ensino, justifica-se se entendidas como actos de descoberta. Neste sentido, interessam-nos, sobretudo, as formas [sejam de poesia experimental ou quaisquer outras] que nos dão a possibilidade de explorar o conteúdo semântico presente no diálogo palavra«imagem.

E porque entendemos que, ao ficarmos apenas pelo lúdico das propostas [embora importantíssimo para o desenvolvimento do gosto pela escrita], não estaremos a acolher todos os contributos que o diálogo palavra«imagem nos oferece, esperamos abrir aqui um espaço de discussão alargado, a propósito dos trabalhos de texto, sobre a escrita das imagens e as imagens da escrita, que formos capazes de desenvolver. 

Que descoberta podem as nossas crianças e jovens fazer, no diálogo da escrita com a imagem? Que actividades podemos promover para que aproveitem ao máximo com este diálogo?

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Abordar a poesia visual, enquanto género literário, não está no nosso horizonte [até porque não nos sentimos à vontade para fazê-lo], mas apenas usá-la pelos contributos que ela oferece ao ensino da língua, e ao desenvolvimento do prazer do texto. É com este propósito que, aos exemplos de poesia visual retratados nas Figuras 1 e 2, acrescentamos outros exemplos, para ver até onde nos levam. Que conversas nos convidam a ter com eles? 

Para quem não conhece o símbolo matemático de infinito [Figura.3], o desenho que as palavras desenham acrescenta alguma coisa à expressão desenhada? Que noção de infinito nos traz? [sobre a origem do símbolo matemático para infinito ler >>>]

Em variadíssimas obras, as imagens que ilustram o texto, porque desenhadas com o objectivo de reforçar o seu sentido, mostram-se acompanhadas de palavras. Sem elas, certamente, não teriam o mesmo significado e seriam incapazes de dizer a mesma coisa. Quer dizer, se foram desenhadas para reforçar uma ideia, vivem de uma ideia que precisa de estar presente com palavras, para que o sentido que ilustram se mostre com toda a sua força. Os desenhos de Rachel Caiano, que poderíamos considerar próximos da representação ideográfica e que ilustram três pequenos capítulos [Elogio do espírito, O Outro I e O Outro II], do livro de Gonçalo M. Tavares «O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas» [que traduzimos, aqui, num pequeno vídeo, a que demos o título «Sobre a força para mudar»], parecem defender esta posição: ilustram o texto, reforçando o seu sentido ou, pelo menos, um dos seus sentidos possíveis, mas sem o texto que pretendem ilustrar não sabemos se apontariam no mesmo sentido com a mesma precisão. Sabemos, no entanto, que a presença das imagens reforça o sentido do texto: faz o seu sentido mais visível.