Manuel Bandeira

A ONDA                                                                                                                                                                                                                                                                   

POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA

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*Quase de cor não dispensa o texto frente aos olhos que o lêem, mas como o sabemos quase de cor, temos impregnada em nós a sua música, e o texto funciona como pauta que não nos deixa perder. É uma habilidade fundamental na leitura de poemas, que incentivamos as nossas crianças a desenvolver

O grande poeta brasileiro Manuel Bandeira escreveu este poema, com apenas seis letras: duas consoantes [d, n] e quatro vogais [a,e,i,o] que, combinadas entre si, formam as quatro palavras que compõem o poema [anda, ainda, aonde, onda]. É um poema “simples” [de leitura exigente], que pode ser trabalhado com crianças de idades muito diversas e diversos níveis de escolaridade: óptimo para integrar actividades de iniciação à leitura, e outras actividades de leitura e escrita mais avançadas.

O número reduzido de palavras, formadas por sons muito próximos [anda-ainda-aonde-onda] que, trocando de posição entre si, se vão repetindo ao logo do poema, propõe às crianças, num primeiro momento, um desafio semelhante ao que é colocado pelos trava-línguas. Lê-lo como trava-línguas poderá ser uma das tarefas: verbalizar as palavras, umas a seguir às outras, rapidamente, sem qualquer preocupação com o sentido, num jogo apenas.
Terminado o jogo, partimos para a leitura que melhor serve o sentido do poema, conscientes de que o movimento da voz e de articulação das palavras, mais do que em qualquer outro texto que as crianças estão habituadas a ler, é aqui fundamental para encontrar o sentido do poema. É que, na marcação das pausas, encontra-se muito do segredo da extracção [e atribuição] do sentido. Por exemplo, pela entoação e duração da pausa, que marcarmos entre a segunda e a terceira pergunta, poderemos dar a ideia de que tivemos uma resposta à segunda pergunta, mas que a surpresa nos levou a repeti-la, para ficarmos certos do que ouvimos [é o que a primeira e terceira leituras, presentes no vídeo anexo, procuram transmitir]; ou que somos irritantemente insistentes na pergunta… 
Aparentemente neutro, trata-se de um texto que se presta a jogos de entoação [interpretação]: ler a rir ou a choramingar, com alegria ou com irritação, etc. Uma interpretação que procuraremos que seja feita sobre o poema dito de cor [ou quase*].

E passamos à escrita que, neste tipo de propostas, costumámos iniciar com actividades que incentivam a reescrita dos textos:

  • Substituir o verbo “Andar” por outro compatível – Substituindo, por exemplo, ANDA por NADA o sentido do poema não se altera. [Apenas uma troca de posição de duas letras e temos uma palavra diferente. Trata-se de um tipo de actividade que serve para vincar que, no mundo das palavras, diferentemente do que acontece no mundo dos objectos, a posição das letras conta: as mesmíssimas letras, trocadas de posição, dão palavras diferentes].

  • Substituir a “Onda” – uma substituição que poderá implicar outras alterações, já que nem todas as palavras escolhidas serão compatíveis com a ligação ao advérbio de tempo “ainda”: “Ainda onda” ou “Onda ainda”, sugere que deixarão de sê-lo em breve. E são poucas as palavras conhecidas que podemos integrar neste contexto. Assim, de repente, vejo a “Nuvem” [ainda nuvem, nuvem ainda], o “Vento” [ainda vento, vento ainda] … e outras da mesma família. Quaisquer outras que impliquem um corte com o advérbio de tempo, permitir-nos-á a escrita de textos que exploram outros sentidos que, dependendo do interesse das crianças, poderemos explorar.

  • Responder às perguntas do poema, reescrevendo-o com as respostas: a onda ainda, anda aonde? [Uma determinada onda, por exemplo, nasce e morre no mar, e aquela outra morre ao chegar à praia]; Responder a outras perguntas que a leitura do poema possa levantar: Como é a onda? Onde nasce? Vai até onde?

Claro que o investimento a fazer nesta ou naquela actividade, assim como o tempo despendido nelas, dependerá do modo como as crianças agarram a proposta.